Beny Fard
Tokenização de Ativos Reais (RWA): o que é, para que serve e qual o valor?
Investimentos Alternativos22/12/20254 min de leitura

Tokenização de Ativos Reais (RWA): o que é, para que serve e qual o valor?

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A tokenização de ativos reais deve alcançar de US$4 trilhões a US$30 trilhões nos próximos 10 anos, segundo pesquisas do Citi e do Standard Chartered.

As expectativas para tamanho crescimento se devem à fase atual de adoção da tecnologia como infraestrutura financeira, com vantagens validadas em diversos testes e vários produtos já em escala global.

O que é Tokenização?

Tokenizar é criar o registro digital (o token) de um ativo do mundo real (em inglês, chamado de Real World Asset ou RWA). O ativo pode ser um precatório, um recebível de aluguel, uma ação, um apartamento ou qualquer outro ativo sobre o qual seja preciso controlar a titularidade.

 

Assim, o token funciona como um “embrulho” para a real fonte de valor: o ativo real subjacente (lastro), que pode conter fluxos de caixa, direitos e obrigações, assim como os produtos do mercado financeiro tradicional.

 

As Vantagens Práticas da Tokenização

O registro digital oferece uma série de benefícios que, dependendo do caso de aplicação, podem ser determinantes para tornar o ativo mais rentável, acessível, transparente ou líquido. Veremos, abaixo, algumas das vantagens observáveis ante produtos tradicionais na aplicação à renda fixa:

 

Eficiência: A estrutura de produtos tradicionais como CRIs e FIDCs é complexa e cara, exigindo múltiplos processos manuais de escrituração e conciliação. Por outro lado, o registro digital permite automatizar diversas funções, reduzindo a quantidade de intermediários envolvidos e o custo estrutural, podendo repassar a economia como um prêmio maior.

 

Acesso e Diversificação: Diversos ativos atrativos, como precatórios e debêntures, são inacessíveis para o investidor de varejo/alta renda devido ao ticket mínimo. A tecnologia permite, por exemplo, "fatiar" um ativo de R$1 milhão em 1.000 tokens de R$1.000, democratizando o acesso e possibilitando maior diversificação nas carteiras.

 

Liquidez: A iliquidez é uma dor crônica do crédito privado. O registro digital 24/7 cria a base tecnológica para um mercado secundário real, com liquidação instantânea (DVP). Mas, no caso de ativos mobiliários, é importante frisar que a CVM ainda está trabalhando no arcabouço regulatório para o mercado secundário.

Como a Tokenização tem sido usada

Nos EUA, gestoras tradicionais estão usando a tokenização para otimizar a infraestrutura de distribuição de produtos tradicionais. Dois casos proeminentes são o BUIDL, da BlackRock, e o FOBXX, da Franklin Templeton, fundos que aplicam em títulos do Tesouro dos EUA. Nesses casos, os principais ganhos acontecem em eficiência e distribuição: os fundos recebem registro digital como um novo trilho de distribuição e liquidação 24/7.

Enquanto isso, no Brasil, reguladores e grandes players tradicionais têm feito esforços para aderir à tendência, com destaque para o projeto piloto de tokenização da Anbima, que irá focar em aplicações para fundos e debêntures.

 

Em outros mercados, a tokenização tem sido usada para destravar classes de ativos que sofrem com as dores de acesso (ticket alto) e iliquidez:

 

Mercado Imobiliário: O registro digital tem sido usado para ampliar o acesso via investimento fracionado em imóveis, permitindo que se participe do mercado com tickets de entrada muito menores do que os exigidos em estruturas tradicionais.

 

Recebíveis: Uma frente de grande volume é a tokenização de recebíveis — como precatórios, consórcios, recebíveis de aluguel ou contratos de energia. É esta aplicação, que registra direitos creditórios como tokens, que dá origem ao que o mercado está definindo como Renda Fixa Digital.

Conclusão: tecnologia é meio, não tese

A tokenização de ativos reais não existe para substituir o mercado que conhecemos. Ela existe para torná-lo mais eficiente, acessível e transparente.

Por isso, nas conversas sobre investimentos, a análise de um ativo tokenizado deve cobrir respostas para as perguntas:

  • qual é o ativo subjacente,
  • qual é o lastro,
  • qual é a estrutura jurídica,
  • e se o ganho tecnológico justifica a adoção.

Lembre-se: a tokenização não transforma um ativo ruim em bom. Ela apenas faz com que ativos bem estruturados circulem melhor.

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